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Manuel & Cardoso

No âmbito do Dia Mundial do Ambiente, entrevistámos a arquiteta Bárbara Miranda para nos falar sobre arquitetura sustentável.

 

Bárbara Miranda, portuguesa, é arquiteta pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto.

Encontra-se atualmente a terminar uma pós-graduação em Arquitetura Sustentável na Kunstuniversität Linz e é estagiária no Studio Anna Heringer, Alemanha. Vê na arquitetura uma ferramenta poderosa para mudar o mundo. Defende a arquitetura sustentável, justa e responsável a nível social, económico e ecológico. Contamos com a arquiteta Bárbara Miranda nesta entrevista acerca de arquitetura sustentável onde a desafiámos a desenvolver o tema.

 

 

1. A Bárbara trabalha com a questão da sustentabilidade na arquitetura. Pode falar-nos um pouco a cerca desse tema?

A arquitetura sustentável é, acima de tudo, uma forma de construir sem desrespeitar o meio ambiente, a tradição arquitetónica, as comunidades locais e a economia. É um tema muito necessário nos dias de hoje, uma vez que os edifícios são responsáveis por 40% do consumo energético na União Europeia. Produzem 36% dos gases de estufa emitidos. É urgente falar, desenvolver e praticar uma arquitetura que seja o menos prejudicial possível para todos.

2. A arquitetura praticada nos dias de hoje é sustentável?
A arquitetura mais comumente praticada hoje em dia, baseia-se em materiais como o betão, alvenaria de tijolo, cimento ou vários tipos de metais. O grande problema destes materiais, é numa primeira fase o uso abusivo de matérias primas como a água ou a areia para o seu fabrico, que acaba por destruir os ecossistemas de onde estas são extraídas.

Seguidamente, o problema passa pela produção. Para fabricar estes materiais é necessário um dispêndio energético muito elevado que consequentemente origina elevadas emissões de dióxido de carbono para a atmosfera. Para além disso, derivado da estandardização dos materiais construtivos que são fabricados centralmente nas respetivas fábricas, o transporte destes materiais é também responsável por inúmeras emissões de CO2.

Finalmente, é importante perceber também que a “qualidade” duradoura destes materiais acaba por ser prejudicial a nível ambiental, uma vez que a sua degradação é muito lenta e destrói o meio ambiente onde se insere. Por outro lado, a arquitetura sustentável, como se baseia em técnicas e materiais construtivos locais e naturais, permite menos transportes, menos energia despendida e menos impacto nos ecossistemas. Por isso, quando olhamos para a arquitetura tradicional portuguesa, feita de terra, madeira, fibras ou pedra, podemos verificar que arquitetura sustentável não é afinal um conceito novo, mas um conceito muito presente na nossa história.

 

3. Quais são os indicadores de sustentabilidade num projeto? Referem-se a materiais e/ou processos?

A sustentabilidade num projeto pode ser aplicada em todas as parcelas do mesmo. Medidas como: empregar artesãos locais, remunerar justamente os trabalhadores, utilizar materiais naturais ou respeitar as tipologias tradicionais de determinada zona são igualmente sustentáveis. A nível ambiental, tanto os materiais, como os processos podem ser indicadores de sustentabilidade. Materiais que estejam abundantemente disponíveis na zona de construção como terra, madeira, fibras ou pedra, assim como técnicas construtivas que privilegiem a mão de obra humana ao invés da utilização de máquinas, tornam um projeto mais sustentável.

Numa vertente mais tecnológica, é também possível aumentar o índice de sustentabilidade de um edifício ao integrar-se o uso de energias renováveis no edifício. Mas para se ser sustentável, não é de todo obrigatório o uso da tecnologia. Por exemplo, os edifícios de terra, devido à sua inércia térmica, conseguem reduzir drasticamente a necessidade de aparelhos tecnológicos como ares condicionados ou aquecedores.

4. Considera que a utilização do recurso, pedra natural, em arquitetura poderá caminhar de mãos dadas com a sustentabilidade?

Sem dúvida. Contudo esta resposta dependerá sempre do contexto onde é aplicada. Em Portugal, podemos testemunhar a grande presença da alvenaria de pedra como o granito ou o xisto na arquitetura principalmente a norte. Isto demonstra o bom uso de um elemento abundante nesta zona em prol da arquitetura. A Sul do país, também podemos ver a importância da pedra na arquitetura portuguesa através do uso extensivo da cal. A cal, proveniente do calcário, permite que as paredes sobre as quais é aplicada sejam respiráveis, tem propriedades antibacterianas e ainda ajuda na reflexão dos raios solares que evita o sobreaquecimento das áreas interiores.

A um nível mais geral, a pedra também acarreta imensas vantagens construtivas no que toca a fundações ou sistemas estruturais. Todas estas formas de utilizar a pedra demonstram que para fazer arquitetura sustentável, basta olharmos para os materiais que nos rodeiam e empregá-los de uma forma que tenha o menor impacto ambiental e o maior impacto social e económico possíveis.
Contudo, sendo a pedra um recurso não renovável nesse sentido é necessário que o seu uso seja ponderado.


5. Na sua opinião, os arquitetos, os engenheiros, as empresas de construção, os fornecedores de materiais, têm consciência das necessidades de preservação do meio ambiente e dos recursos?

Diria que as gerações profissionais mais jovens são as que mais estão conscientes do impacto da arquitetura no meio ambiente. No entanto, ainda existe um longo caminho pela frente para tornar a arquitetura mais sustentável. Cabe principalmente aos países desenvolvidos, recuperar as técnicas construtivas tradicionais que só por si já respondem aos problemas climáticos, ecológicos e sociais e transformá-las na arquitetura contemporânea que dá resposta aos problemas atuais do século XXI. É em especialistas como a Anna Heringer ou o Martin Rauch que nos devemos inspirar para criarmos edifícios saudáveis para um planeta mais saudável também.

 

Agradecemos a participação da arquiteta Bárbara Miranda nesta entrevista de Arquitetura Sustentável.

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